O Mistério dos “Yips” no Desporto: Quando o Corpo Deixa de Obedecer

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No mundo do desporto de alta performance, poucos fenómenos são tão temidos e misteriosos como os “yips”. Descritos como uma desordem de movimento psico-neuromuscular, os yips afetam principalmente atletas em modalidades que exigem competências motoras de precisão fina, como o golfe, o basebol, o críquete e os dardos. Este distúrbio manifesta-se através de espasmos involuntários, tremores ou um “congelamento” (freezing) do movimento no momento crucial da execução. Para muitos profissionais, os yips não são apenas um obstáculo técnico, mas uma condição que pode ditar o fim prematuro de carreiras brilhantes.

O que são exatamente os Yips?

Os yips caracterizam-se pela interrupção de um movimento motor que outrora era automático e fluido. Embora tenham sido reportados pela primeira vez no golfe em 1977, a sua presença foi confirmada em diversas modalidades, incluindo o tiro com arco (onde é conhecido como “pânico do alvo”), o snooker e até o ténis. No golfe, onde a prevalência é mais documentada, estima-se que entre 28% e 54% dos jogadores com handicaps baixos já tenham experienciado os sintomas. Recentemente, estudos em jovens jogadores de basebol revelaram uma prevalência de cerca de 10,2%, sendo os lançadores (pitchers) os mais afetados.

A Classificação: Da Mente aos Nervos

A literatura académica e clínica divide geralmente os yips num contínuo que separa causas neurológicas de causas psicológicas:

  • Tipo I (Focal-Distonia): Associado a uma desordem neurológica caracterizada por contrações musculares sustentadas que resultam em movimentos de torção ou posturas anormais. É uma condição semelhante à cãibra do escrivão ou à distonia dos músicos.
  • Tipo II (Choking): Manifesta-se como um fracasso na performance devido à ansiedade extrema perante a pressão competitiva. Aqui, o foco excessivo no próprio movimento (reinvestment) acaba por perturbar a fluidez do gesto técnico.
  • Tipo III (Misto): Proposto em modelos mais recentes para classificar atletas que apresentam tanto sintomas físicos de distonia como componentes psicológicos de ansiedade.

Causas e Fatores de Risco

A etiologia exata dos yips permanece incerta, mas várias investigações apontam para uma combinação de fatores. Um estudo de larga escala realizado no Japão demonstrou que carreiras desportivas mais longas e a presença de problemas musculoesqueléticos são fatores independentes associados à experiência de yips. A repetição prolongada de movimentos finos pode causar alterações desadaptativas no sistema sensoriomotor, resultando na deterioração da performance.

Além disso, traços de personalidade como o perfecionismo (preocupação com erros e padrões pessoais elevados) e o pensamento obsessivo parecem aumentar a suscetibilidade ao distúrbio. Curiosamente, os yips tendem a manifestar-se com maior frequência em atletas mais velhos e com mais anos de experiência, o que sugere que o desgaste e o volume de treino desempenham um papel crucial.

Como os Atletas Enfrentam o Problema?

Muitos atletas tentam gerir os yips de forma autónoma, recorrendo a alterações técnicas, como mudar o estilo de “grip” (pega), o comprimento do taco ou lançar com a mão não dominante. No entanto, estas estratégias de autoajuda são frequentemente inconsequentes a longo prazo.

O tratamento dos yips exige hoje uma abordagem multidisciplinar que combine perspetivas psicológicas, neurológicas e de performance. Entre as intervenções estudadas encontram-se:

  1. Psicológicas: A Imagética Guiada Focada na Solução (SFGI) e a Técnica de Liberdade Emocional (EFT) mostraram resultados positivos em estudos de caso, ajudando a reduzir a ansiedade e a restaurar a confiança.
  2. Médicas: Em casos de distonia clara (Tipo I), têm sido utilizadas injeções de toxina botulínica (Botox) para relaxar os músculos afetados, bem como medicamentos como o propranolol ou diazepam para controlar tremores e ansiedade.
  3. Técnicas de Distração: O uso de “truques sensoriais”, como mudar a pressão da pega ou focar-se em sons externos (música) durante a execução, pode ajudar a desviar a atenção interna que causa o bloqueio.

Conclusão: Há Cura?

Embora os yips sejam descritos como um “vício catastrófico”, existem relatos de atletas que superaram a condição através de mudanças drásticas na técnica e acompanhamento especializado. O mais importante é que médicos, treinadores e psicólogos reconheçam que esta não é apenas uma questão de “nervos”, mas sim uma condição complexa que exige empatia e um diagnóstico preciso. O desenvolvimento de novos modelos de classificação e a utilização de tecnologias como a captura de movimento e eletromiografia prometem, no futuro, oferecer soluções mais eficazes para que os atletas possam voltar a desfrutar da sua modalidade sem o medo do próximo espasmo.


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